Espiritualidade Carmelitana

A espiritualidade do Carmelo é a espiritualidade da união com Deus ou a intimidade divina. A união com Deus é a maneira de ser e de atuar do Carmelo, tanto em seu interior como no apostolado externo. É a ideia central de seu programa de vida, que está organizado em função desse fim.

O primeiro estilo de vida carmelita, nos anos em que surgiu e permaneceu na Terra Santa (Israel) foi eremita. Mas com a migração para a Europa teve de se adaptar às novas exigências. De eremítico-contemplativa a Ordem torna-se Mendicante com especial acento contemplativo. A espiritualidade da nova geração de carmelitas na Europa se encaminha a um equilíbrio entre contemplação e ação. Assim, o antigo eixo “contemplação-ação” vem a ser um fio condutor no desenvolvimento da espiritualidade carmelitana, e, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade para captar a fisionomia própria.

O ideal da vida carmelitana, especialmente o seu aspecto contemplativo, começa configurar-se em duas pessoas que, desde o início inspiraram a vida e a devoção dos carmelitas: o Profeta Elias, célebre em toda a literatura patrística-monástica como o protótipo e modelo dos solitários e contemplativos, e a Virgem Maria, venerada pelos carmelitas junto a fonte de Elias, como a “Domina loci” (Senhora do lugar), a padroeira.

Este é o carisma que herdamos desde o princípio da Ordem e que nossos santos místicos, Teresa e João da Cruz, souberam expressar tão bem. Contudo eles não fizeram mais que recolher e acentuar o que, desde as origens elianas, vinha constituindo como a síntese carmelitana.

Os elementos básicos do nosso ser Carmelita os encontramos na nossa Regra de vida. Na sua introdução está aquilo que é o básico de todas as Ordens e Congregações: “viver no obséquio de Cristo e a Ele servir com coração puro e em boa consciência”.

Ser, pois, carmelita, é aspirar à intimidade com Deus, meta sublime que se alcança mediante uma ascensão progressiva. É a “subida do Monte Carmelo”, tão belissimamente descrita por São João da Cruz, onde no cimo se realiza o encontro transformante com Deus.

O teor da vida carmelitana é centrado na busca da solicitude coletiva e individual para obter a união com Deus na oração: “Permaneça cada um na sua cela ou nas vizinhanças da mesma, meditando dia e noite a Lei do Senhor e vigiando na oração, a menos que esteja ocupado em outra justa ocupação”.

Para se chegar a esta união, o Carmelo nos oferece os meios

O primeiro meio para esta união com Deus é a ascese. Ascese é uma palavra que significa purificação, libertação de tudo o que atrapalha na vivência desta intimidade, deste encontro com o Amado, de maneira que a pessoa possa chegar a Deus com um coração puro.

Este trabalho purificador vai dispondo pouco a pouco a pessoa para uma progressiva ascensão, despojando-a do peso que impede de voar livremente. A pessoa vai se libertando das coisas materiais e terrenas, para que se adquira agilidade no caminhar (pobreza); libertação do peso do corpo, de maneira que fique livre das ataduras da sensualidade (castidade); libertação do egoísmo, de maneira que a pessoa se abra à orientação de outros mais experientes (obediência).

O silêncio e a solidão vieram ser uma das notas características do Carmelo. É algo integrante da sua vida. A Regra do Carmelo nos ensina: “No silêncio e na esperança está vossa fortaleza”. Silêncio e solidão são duas armas iluminadoras do Carmelita. São os acumuladores onde a alma se eleva e se enriquece para cumprir sua dupla missão de ativo e contemplativo.

O fim do Carmelo é a intimidade divina na contemplação; e para isto toma como meio mais eficaz a oração, que vivifica os atos do carmelita. É sua principal ocupação. Com razão pode dizer o Papa Leão XIII: “Sem a oração nada é o Carmelo”.

Um elemento fundamental do ser carmelita é o da fraternidade, mas uma fraternidade orante. Nossa atitude contemplativa faz descobrir Deus presente nas nossas experiências quotidianas, leva-nos a encontrá-lo especialmente nos nossos irmãos. Assim se expressam as atuais Constituições: “Como fraternidade contemplativa, buscamos o rosto de Deus e servimos a Igreja no coração do mundo ou, eventualmente, na solidão eremítica”.