A Palavra de Deus ilumina nossos passos: o humano em busca da Sabedoria

A Bíblia é uma fonte inesgotável da Sabedoria de Deus. A humanidade busca vivenciar aquilo que nosso Criador nos comunica, isto é, viver o Amor. As Sagradas Escrituras são uma coleção de relatos (inspirados e vividos) que apresentam para as novas e futuras gerações a relação de aliança entre Deus e a humanidade. A Palavra é inspiração divina e testemunho de homens e mulheres que vão ao longo dos séculos iluminar toda a humanidade.

As páginas das Escrituras são o reflexo de uma comunicação profunda entre a humanidade e seu criador. Desde Gêneses ao Apocalipse vemos uma relação de união e de afeição. Temos como ápice a encarnação de Cristo, pois nele se concretiza todas as profecias e se realiza a nossa esperança que é a vida eterna. Na Bíblia “tudo é visto em relação à presença ativa e amorosa de Deus, sem a qual não podemos compreender nem a natureza do homem nem o sentido de sua história”[1].

Sabemos que a história da humanidade não está isolada a realidade de fé do povo de Deus. Um povo que se coloca a caminhar e seguir os ensinamentos divinos. Trata-se de uma caminhada de liberdade e de entrega a Deus que é Sabedoria e Amor. Como outrora o povo caminhava no deserto, hoje mesmo diante do mundo moderno (ou pós-moderno) é preciso compreender que não existimos como origem em nós mesmos ou temos um fim na própria carne (corpo), mas somos direcionados ao transcendente, isto é, somos e pertencemos a Deus.

Somos chamados a caminhar nesta vida conforme os desígnios sagrados, isto é, escutando a voz daquele que nos chama a sermos profeta. Mas, não somente escutar, mas seguir e anunciar. Pois, “este anúncio é, para nós, uma palavra libertadora. De facto, as afirmações da Sagrada Escritura indicam que tudo o que existe não é fruto de um acaso irracional, mas é querido por Deus, está dentro do seu desígnio, em cujo centro se encontra a oferta de participar na vida divina em Cristo.” (Verbum Domini, n. 8)

Papa Francisco lembra-nos que nenhum outro livro tem o mesmo poder que a Bíblia, pois ela é capaz de transformar vidas. “Através de sua Palavra, conhecemos o Espírito que a inspirou; de fato, somente no Espírito Santo pode ser verdadeiramente recebida, vivida e anunciada, porque o Espírito ensina tudo e recorda tudo o que Jesus disse”[2]. E escutando o Salvador compreenderemos a realização do projeto divino, compreendemos os Profetas e a Lei, mas, sobretudo, compreenderemos a ação do Espírito Santo que conduz a Igreja.

O Espírito Santo que conduz a Igreja, também ajuda seus membros na interpretação da Sagrada Escritura. Adentrar nas Sagradas Escrituras é uma missão vital para a fé cristã e para a vivência da Igreja, por isso, interpretá-la é orientar da melhor forma como viver as necessidades de cada época. É preciso sim uma exegese (interpretação), que tenha como tarefa buscar o sentido autêntico do texto sagrado, para não cair numa leitura fundamentalista. Cabe ao Magistério indicar caminhos para uma interpretação compatível com o Evangelho, o que por fim influenciará na vivência dos valores religiosos, éticos e morais. O estudo bíblico não é projetar sobre os escrito, criando opiniões e ideologias, mas trazer a luz divina para o tempo presente, provocando um verdadeiro encontro com Cristo[3].

Enquanto fiéis entendemos que “a interpretação é, ou melhor, deve ser um ato de obediência. Ora, a obediência ao que o Autor queria comunicar implica que saibamos distinguir entre o que na página bíblica é parte integrante da Revelação e o que é uma expressão contingente, ligada à mentalidade e aos costumes de uma determinada época histórica”[4]. Adentrar nas linhas dos textos sagrados é um ato de atualizar a Palavra no sentido de responder aos anseios e necessidades da humanidade. Ao ler e reler a mensagem sagrada somos inseridos numa dinâmica divina, aonde pela ação do Espírito Santo nos transformamos em anunciadores da Boa-Nova, cumprindo o chamado de Jesus: “Ide a todo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc. 16,15).

Para correspondermos ao chamado de sermos discípulos e discípulas do Mestre (Jo. 1, 38 – 20,16) devemos aprofundar na oração, e, também como nos ensina os Salmos as nossas preces, súplicas e louvores são frutos da realidade da comunidade. É nesse caminho histórico que nos colocamos em intimidade com a Palavra de Deus. A Igreja nos indica a Lectio Divina, por ela a humanidade faz brotar nos corações uma relação de amizade com Deus, trata-se de uma relação de intimidade (Jo 15,15), pois passamos a conhecer os desígnios divinos. Não se trata de desvelar os mistérios da fé, mas de realizar a experiência de sermos transformados pelos ensinamentos divinos. Como nos diz papa Francisco é um diálogo com Deus, sabendo que “aquele versículo da Bíblia foi escrito também para mim, para me trazer uma palavra de Deus. Foi escrito para cada um de nós”[5].

A leitura orante da Bíblia permite que a humanidade realize um diálogo com Deus e nos faz adentrar na história da humanidade, nos conselhos sagrados, nas profecias, nos testemunhos das testemunhas oculares da presença de Cristo, nas indicações dadas aos primeiros cristãos e  fomentar nossa esperança futura. A Bíblia nos permite viver a nossa vida sacramental, pois revivemos e rememoramos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, pois desse mistério decorrem a nossa consagração primeira e os demais Sacramentos até a concretização da nossa certeza que é a vida eterna. E graças ao que nos foi transmitido pelos homens e mulheres de fé que testemunharam a Cruz e o túmulo vazio que podemos anunciar que o Madeiro Sagrado é sinal de vida e luz. Pela Cruz somos chamados a participar do banquete celestial (que em vida se dá na Eucaristia).

A Palavra Sagrada é uma riqueza inestimável, pois nos transpõe do mundo visível ao que é invisível, isto é, as graças de Deus. “Deste modo, pois, com a leitura e estudo dos livros sagrados, que ‘a palavra de Deus se difunda e resplandeça’ (2 Tess. 3,1), e o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela Palavra de Deus, que ‘permanece para sempre’ (Is. 40,8; cfr. l Pedr. 1, 23-25).” (Dei Verbum, n.26)

Nosso Criador permanece sempre em comunhão com a humanidade e “a Palavra de Deus é luz: abre horizontes de esperança, porque revela Deus que age na história com a sua infinita potência do bem”[6]. Deus que é Amor (1 Jo. 4,8) se faz presente em nossa caminhada. Conforme a Dei Verbum (n.2): “aprouve a Deus na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele.”

Somos chamados a ouvir e a viver a Palavra de Deus em nossa vida. “Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo e por Quem igualmente criou o mundo” (Hb 1, 1-2). A Bíblia é comunicação de Deus conosco e nos apresenta seu projeto de paz, justiça e amor e “neste diálogo com Deus, compreendemo-nos a nós mesmos e encontramos resposta para as perguntas mais profundas que habitam no nosso coração. De facto, a Palavra de Deus não se contrapõe ao homem, nem mortifica os seus anseios verdadeiros; pelo contrário, ilumina-os, purifica-os e realiza-os. Como é importante, para o nosso tempo, descobrir que só Deus responde à sede que está no coração de cada homem! Infelizmente na nossa época, sobretudo no Ocidente, difundiu-se a ideia de que Deus é alheio à vida e aos problemas do homem; pior ainda, de que a sua presença pode até ser uma ameaça à autonomia humana.” (Verbum Domini, n. 23).

Devemos permitir que a Palavra de Deus nos oriente a caminhar neste mundo, nos colocando como peregrinos (1 Pe. 2,11) que seguem o Bom Pastor (Jo. 10,6) que nos levar a viver na luz: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Iluminados pela Bíblia, vemos o conjunto de livros como um álbum familiar que conserva tudo quanto é tipo de fotografia. Álbum que registra os momentos da história do povo de Deus, reafirmando que ninguém consegue viver só, mas que vivemos como família[7], membros de um mesmo corpo místico (1 Cor. 12,12-14).

Uma família que guarda boas lembranças sempre recorre aos seus registros e relatos, que para nós cristãos estão na Bíblia e expressão a vontade de Deus que é o Bem. “O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.” (Evangelii Gaudium, n.9) E mais, para nós cristãos,  anunciar o Evangelho é uma missão, pois por sermos testemunhas do mistério e por termos a consciência de pertencer a Cristo, O anunciamos. (DAp. n.143-148).

Destaca-se que a Palavra de Deus é sempre nova e possui em si mesma, tal potencialidade, que não a podemos prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (Mc. 4, 26-29). A Igreja deve aceitar esta liberdade da própria Palavra, que é eficaz a seu modo e inspira os seres humanos em sua caminhada de fé. (Cf. Evangelli Gaudium, n.22).

A Palavra de Deus é viva e eficaz, faz com que a humanidade instigue sua natureza e procure o real sentido da sua existência. As experiências que nos são transmitidas são um profundo conhecimento daquilo que é proposto por Deus, ou seja, a vivência da fraternidade entre a raça humana. Todos somos filhos e filhas de Deus (1 Jo 3,1), resgatados pela Cruz (1 Pe 1,19) e direcionados para viver o Reino de Deus – novo céu e nova terra (Ap. 21,1). A Sagrada Escritura é sabedoria e graça divina direcionada aos humanos e ao mesmo tempo leva a humanidade para Deus.

[1] PONTIFICIA COMMISSIONE BIBLICA. «Che cosa è l’uomo?» (Sal 8,5). Un itinerario di antropologia bíblica.

[2] PAPA FRANCISCO. Audiência com a Sociedade Bíblica Americana. 31/10/2018.

[3] PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A Interpretação da Bíblia na Igreja. 1993.

[4] PONTIFICIA COMMISSIONE BIBLICA. «Che cosa è l’uomo?» (Sal 8,5). Un itinerario di antropologia bíblica.  n.5.

[5] PAPA FRANCISCO. Ecclesia. Audiência dia 27 de janeiro de 2021.

[6] PONTIFICIA COMMISSIONE BIBLICA. «Che cosa è l’uomo?» (Sal 8,5). Un itinerario di antropologia bíblica.  n.13.

[7] MESTERS, Carlos. Deus onde estás? Uma introdução prática à Bíblia.

 

Por: Frei Renê Villela, O.Carm