Como viver a “Pequena Via” de Santa Teresinha do Menino Jesus

Acredito muito que também através das cartas podemos compreender o que era a “pequena via” para Teresa. Aquilo que Teresa transmitia aos seus destinatários era simplesmente a sua própria experiência espiritual. Por isso, acredito muito que as cartas de Teresa precisam cada vez mais chegar ao conhecimento das pessoas que querem aprender mais sobre ela. O meu conselho é sempre conhecer Teresa através dela mesma, pelas suas cartas, pelas poesias, canções, peças de teatro. A obra de Teresa é ampla e em cada parte ela se revela, revela seu caminho.

Teresa desejou que outros chegassem ao céu pelo seu caminho, desejou compartilhar a “pequena via” com suas irmãs, com seus irmãos missionários, com seus familiares e também com cada um de nós. A via de Teresa é principalmente uma via de Abandono, confiança total no Poder de Deus na nossa vida e também uma via perfeita para colocar em prática a caridade evangélica e realizar qualquer coisa contando com a graça de Deus.

O caminho de Teresa é um caminho de amor. Mas, não um amor de sentimentos, de palavras, isso nos ensina Teresa[1]. Um amor de obras, de passar por cima das nossas limitações, pobrezas. Teresa fugia como um desertor das fofocas, das rodas de conversas onde destruíam pessoas, nas situações onde poderia fazer escapar as suas piores reações. Teresa se doava mesmo quando era difícil. Não nadava em consolações, como ela mesma dizia, mas abraçava os sofrimentos com alegria porque acreditava no objetivo, no motivo de tudo aquilo, acreditava que para ressuscitar com Cristo é preciso antes morrer com ele e por Ele. O amor de Teresa é o amor de Jesus, ou seja, a sua mensagem, seu caminho, sua doutrina é a mensagem do próprio Evangelho.

Teresa compreendeu que amar somente aqueles que nos amam e podem nos dar algo em troca é muito pouco. Todos precisam experimentar o Amor de Jesus, ela lutou por isso até o ultimo suspiro.

Como viver a Pequena Via?

Muitas vezes a vivência prática do caminho espiritual proposto por Santa Teresa de Lisieux pode parecer banal se reduzido a pequenos gestos sem sentido. Mas, por outro lado se formos capazes de perceber o contínuo processo de conversão e ascese nesses atos, poderemos ver muito além do que pensamos. Sabemos que a doutrina espiritual de Teresa não se limita a realizar com amor as pequenas tarefas ordinárias, mas, certamente esse é um dos pontos importantes da sua espiritualidade, um desejo de utilizar das oportunidades do dia a dia para colocar o Evangelho em prática.

Poderíamos usar vários exemplos para ilustrar esse ponto da nossa reflexão. Porém, escolho falar da relação de Teresa com as suas irmãs de comunidade, afinal, todos sabemos das dificuldades que podem surgir a partir de uma convivência diária, principalmente tratando-se de uma comunidade religiosa com pessoas das mais diversas personalidades.

A princípio, muitos podem pensar que Teresa não encontrou dificuldades nas relações interpessoais no mosteiro, que seu jeito dócil e amável não lhe permitia observar os defeitos dos outros e que a vida fraterna era um mar de rosas. Mas, isso não é verdade, ela mesma afirma: “ao lerdes o que acabo de escrever, poderíeis pensar que a prática da caridade não me é difícil[2]”.

Teresa era consciente das suas próprias limitações e relata diversas vezes o processo de amadurecimento que teve a partir da graça de Natal de 1886, quando sentiu a necessidade de mudar aspectos no seu caráter: “Ao ver o caminho que Ele me fez percorrer, a minha gratidão é grande, mas, devo reconhecê-lo, se o maior passo estava dado, tinha ainda de deixar muitas coisas[3]”. No Carmelo, a jovem monja sempre buscou ter uma atenção especial para controlar o seu desejo de querer estar sempre perto de suas irmãs de sangue que moravam no mesmo mosteiro. Teresa não queria depender dessa relação e estava disposta a abrir-se a uma amizade também com as outras religiosas, o que exigiu muito esforço.

Giulia Maria Elisa Leroyer[4] entrou no Carmelo de Lisieux aos 20 anos de idade e recebeu o nome de Irmã Teresa de Santo Agostinho, humilde e serena foi por muitos anos a sacristã da comunidade monástica e conviveu com Teresa do Menino Jesus. Após a morte da santa, Irmã Teresa de Santo Agostinho escreveu um manuscrito intitulado “recordações de uma santa amizade” relatando a alegria e gentileza com que a sua amiga lhe tratava. Mas, é sobre ela que Santa Teresa do Menino Jesus fala no Manuscrito C como “uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu caráter, pareciam-me muito desagradáveis[5]”. Em outras palavras, poderíamos dizer que Irmã Teresa de Santo Agostinho a incomodava e tinha tudo para contribuir com uma relação conflituosa.

Apesar de todos esses defeitos que automaticamente saltavam aos olhos de Teresa quando se aproximava daquela Irmã, reconhecia que era uma santa religiosa e que mesmo não sendo “agradável” segundo os seus gostos e parâmetros, deveria ser muito agradável a Deus. Aqui, gostaria de chamar a atenção para não interpretar essa situação como algo superficial, não se trata uma coisa simples, mas, justamente é o segredo para qualquer convivência saudável entre os homens: reconhecer que “a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas em obras[6]”.

Teresa usa a imagem de um artista que coloca todo seu amor em uma obra de arte, a mesma obra pode agradar mais a um público e menos a outro, talvez possa até ser rejeitada por alguns, mas, continuará significando muito para quem a criou. Por isso, Teresa diz que todas as vezes que a encontrava “rezava por ela a Deus, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e méritos. Estava certa de que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber louvores pelas suas obras[7]”. Teresa demonstra um verdadeiro esforço para encontrar no outro algo de bom, apesar de tantas coisas negativas que a incomodavam. Decidiu fazer por aquela irmã aquilo que faria pela pessoa que mais amasse no mundo, ultrapassou os limites do preconceito e dos seus julgamentos em nome de um Amor maior.

Os defeitos que Teresa encontrava naquela irmã não desapareceram com a sua decisão de amá-la, mas, todas as vezes que tinha a tentação de responder de modo grosseiro, desviava o discurso e apresentava o seu mais belo sorriso. Às vezes essas situações se tornavam violentas lutas interiores e era preciso fugir da situação para não revidar com agressividade e indelicadeza. É justamente sobre essas situações que nos exorta o Papa Francisco em Gaudete et Exsutate quando fala de paciência e mansidão:

“É preciso lutar e estar atentos às nossas inclinações agressivas e egocêntricas, para não deixar que ganhem raízes: «se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento» (Ef 4, 26). Quando há circunstâncias que nos acabrunham, sempre podemos recorrer à âncora da súplica, que nos leva a ficar de novo nas mãos de Deus e junto da fonte da paz: «por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em ações de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações» (Flp 4, 6-7)[8]”.

A própria Santa Teresa do Menino Jesus conta que a Irmã Teresa de Santo Agostinho não sabia por qual motivo a tratava tão bem:

“Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras, com um ar muito contente: ‘Poderíeis dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, cada vez que olhais para mim vejo-vos sorrir’ Ah! o que me atraía era Jesus escondido no fundo da sua alma… Jesus, que torna doce o que há de mais amargo… Respondi-lhe que sorria porque ficava contente de a ver (claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual)[9]”.

Isso não significa que Teresa agia com falsidade em relação a suas coirmãs, mas, confirma que apesar de ter tanta dificuldade com o caráter daquela religiosa, procurou ir mais além do superficial e acreditar que Jesus também estava nela, mesmo que fosse de modo “escondido”.

Teresa compreendeu bem a mensagem de Jesus: “Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?[10]”. Afinal, é sempre mais fácil dar amor aos que nos são caros e que nos agradam. Na maioria das vezes caímos no erro de criar um círculo de pessoas que “gostamos”, escolhendo assim com quem queremos colocar em prática o Evangelho de Jesus Cristo.

Santa Teresa não deixou escapar a oportunidade de viver essa experiência com a Irmã Teresa de Santo Agostinho, o que explica o fato de que essa irmã tenha sido uma das testemunhas interrogadas durante o processo de beatificação e canonização da nossa santa. Durante seu depoimento nos dias 14 e 15 de fevereiro de 1911 e declarou:

“Conheci a Serva de Deus da sua entrada no Carmelo em 1888 até a sua morte em 1897. Durante esse tempo, vivi ao seu lado com certa intimidade. Neste depoimento me servirei pouco daquilo que escutei da nossa Madre e das outras irmãs, assim como não me servirei da História de uma alma escrita por ela mesma. Todo o meu depoimento se baseia nas minhas recordações pessoais[11]”.

Esse é um aspecto da vida de Santa Teresa de Lisieux que agrada muito o Papa Francisco e, não sem motivo, o exemplo que apresentamos aqui foi proposto por ele em Gaudete et Exsultate como caminho de santidade:

“Disse o Papa: «Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito» (Mt 11, 29). Se vivemos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos de gastar energias em lamentações inúteis. Para Santa Teresa de Lisieux, «a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas»[12]”.

Para Von Balthasar, esse exemplo com a Irmã Teresa de Santo Agostinho, revela como Teresa de Lisieux aplicava em sua própria vida a o mandamento do Amor[13]. Teresa cumpre esse amor mesmo que não consiga encontrá-lo dentro de si mesma, superando a lei natural simpatia que temos por algumas pessoas.

Suportar as limitações dos outros e aprender a conviver com as diferenças, principalmente de quem pensa diferente de nós é um meio eficaz para a promoção da paz e da fraternidade. Com esse exemplo de Santa Teresa do Menino Jesus, compreendemos a atualidade da sua mensagem e da sua doutrina.

 

Escrito por: Frei Juliano Luiz da Silva, O.Carm.

 

 

[1] Ms C 13 vº.

[2] Ms C, 13rº.

[3] Ms A, 46vº.

[4] Testemoni di Teresa di Gesù Bambino, dai processi di Beatificazione e Canonizzazione. A cura di Amata Ruffinengo, prefazione di Giuseppe Pollano, ed. OCD. Roma, 2004. p 187.

[5] Ms C, 13vº.

[6] Ms C, 13vº.

[7] Ms C, 14rº.

[8] Gaudete et Exsultate, 114.

[9] Ms C, 14rº.

[10] Mt,5,46.

[11] Testimoni, 188.

[12] Gaudete et Exsultate, 72.

[13] Von Batlthasar, p. 63.