Edith Stein e a Ciência da Cruz

Edith Stein (1891-1942), filosofa, discípula de Edmund Husserl, que depois de se converter para o catolicismo e entrar para a vida religiosa carmelitana, professou com o nome Irmã Teresa Benedita da Cruz. Após sua conversão, Stein usou do conhecimento filosófico para estudar e entender o pensamento de São João da Cruz, obra que ela caracterizou como Ciência da Cruz (Kreuzeswissenschaft). Edith, ofereceu uma grande colaboração para a compreensão do Cristianismo a parte de uma fenomenologia carmelitana.

Partindo da análise dos princípios da Noite Escura de São João da Cruz, Edith Stein pretende mostrar elementos característicos da vida desse autor, mas também desenvolver elementos antropológicos próprios que superam em alguns aspetos. A vida humana compreendida à luz da ciência da cruz, esta se trata principalmente da elevação da alma ao Deus pela Cruz, noite passiva e ativa e união com o sagrado. Neste viés, a análise fenomenológica mostra-se um meio de clarificar o simbolismo, a experiência mística como a estrutura correspondente da alma com Outro.

Nesta linha de pensamento, Stein associa a noite ativa com a aceitação e tomada da cruz sobre si, enquanto a noite passiva será relacionada com a crucifixão como a morte para o pecado. Aceitar a cruz é uma experiência exigente e complexa em termos antropológicos: O ponto de partida de Stein estava nos símbolos poéticos de João da Cruz, ela passa a analisar a estrutura antropológica essencialmente que permite experiência mística: “a corrente que desta fonte vem, é poderosa, eu o sei-o bem, mesmo de noite” (João da Cruz, 1996, p. 44). Da análise desses símbolos, a cruz e a noite: “por essa razão, parece-nos conveniente examinar em profundidade a relação entre a cruz e a noite, a fim de obtermos a compreensão exata da importância da cruz para a doutrina de São João” (Stein, 2004, p.40).

Desta forma, os símbolos são de algo sagrado que, manifestando-se como algo exterior, ao ser interiorizado, passa a ser estímulo para uma transformação da própria alma, para que esta amolde-se aos conteúdos das verdades da Fé. Também se fala em ciência da cruz como referência ao sofrimento que caracteriza a transformação da alma neste processo de santificação.

Edith a denomina ao comentar a doutrina mística de João da Cruz, seria o homem na via do conhecimento de Deus. Neste ponto o reage às iniciativas da graça divina, mas não se trata, ainda, de uma inabitação pela graça, pois a relação que se estabelece entre Deus e a alma ainda é operada quase que exclusivamente pelo intelecto, ou seja, consiste numa atividade de conhecimento racional. No que se refere à biografia de Edith, parece possível dizer que a sua formação fenomenológica certamente a despertara para a possibilidade desse conhecimento de Deus. Seria o toque do despertar da fé. “Esse toque pode ser dado ao incrédulo para o despertar da fé e a preparação à graça santificante.

A união, porém, é entrega mútua, não poderá existir sem fé e amor, ou seja, sem a graça santificante. Segundo Edith Stein, pode haver mesmo um “toque” de Deus no íntimo da alma, ou seja, algo como uma inspiração ou uma iluminação, sem que isso signifique já uma relação de entrega mútua. “como fruto da meditação, produz-se um estado permanente de conhecimento amoroso: a alma permanece em extrema paz, tranquila e amorosa, na presença do Deus que a fé levou a conhecer”.

Na obra de São João da Cruz, a quem é dedicada a sua obra prima espiritual, Ciência da Cruz Edith Stein encontrou aquilo que buscava: uma férrea precisão na descrição da experiência do espírito, uma “ciência rigorosa” que é, um verdadeiro e próprio “saber” ou algo que, etimologicamente, tem sabor, está cheio de gosto.

Não foi um retorno nostálgico ao passado, portanto, mas um itinerário que passa pela exigência de verdade da cultura contemporânea, o que conduziu Stein do limitado ambiente universitário, em que a própria vida é posta a serviço da instituição, ao Carmelo e ao testemunho final no martírio em Auschwitz.

Por: José Marques de Oliveira (postulante)