Frei Cláudio van Balen: a vida e história do frade que conquistou multidões e abraçou os mais pobres

Na tarde do último sábado, 20 de novembro, Frei Cláudio Van Balen, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, faleceu aos 88 anos de idade, vítima da Covid-19. Após se queixar de fortes sintomas gripais e dificuldade de respirar, o frade foi internado na quinta-feira, dia 18, no Hospital Vera Cruz. O estado de saúde piorou e a doença evoluiu rapidamente.

Frei Cláudio deixa muitas saudades, mas também deixa um grande legado, não só para a cidade que tanto amava, mas para os fiéis e amigos que nutrem tanto carinho por ele. Ele deixa um legado pautado pela caridade e pelo amor ao próximo.

TRAJETÓRIA DE VIDA

Nascido na Holanda no dia 26 de setembro de 1933, Frei Cláudio Van Balen se mudou para o Brasil em 1950, passando grande parte da sua caminhada religiosa em Belo Horizonte.

Frei Cláudio foi criado em uma família de onze filhos e teve uma infância difícil. Aos 7 anos, o contexto em seu país vivia era de guerra, a Holanda tinha sido invadida pelo Exército Nazista. Naquela época, testemunhou as atrocidades da guerra e aprendeu, com o exemplo dos pais, a indignar-se contra a violência, a compadecer-se dos mais sofridos e assumiu o compromisso cristão de lutar pela justiça e pela paz.

Na adolescência, foi convidado pelo diretor da escola onde estudava a realizar um curso profissionalizante, mas  recusou. Para surpresa da família, optou por ser padre.

Chegou ao Brasil com 16 anos, em 1949, e logo se interessou por compreender os brasileiros. Estudioso, tornou-se conhecedor não só da cultura como da língua portuguesa. Tornou-se um escritor de destaque, tendo mais de 40 livros de sua autoria. Fez seus estudos em São Paulo, graduando-se em Letras Clássicas, em 1958, mestrado em Teologia Dogmática, em Roma, em 1964, e mais tarde, graduando-se em Psicologia Clínica, 1979, em Belo Horizonte.

Entrou para a Ordem do Carmo, aos 21 anos, em 1954. Com um grupo de jovens carmelitas, foi enviado à Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, em Belo Horizonte, em 1967.

O grupo, coordenado por Frei Paulo Golarte, mostrou-se logo entusiasmado com os desafios encontrados. Inicialmente, tomaram a decisão de promover uma pesquisa para melhor conhecer a Paróquia e a vizinhança e desde então, podia-se perceber a discreta liderança do jovem Frei Cláudio.

Os frades, sob a influência do Concílio Vaticano II, introduziram a espiritualidade de Jesus, numa relação respeitosa com os paroquianos, aproximando leigos e sacerdotes no exercício da fé.

Foi o início de uma cumplicidade fecunda entre a Igreja e os bairros que, hoje, constituem a Comunidade Carmo-Sion. Centenas de voluntários se integraram em dezenas de serviços, que se multiplicaram e transformaram a Paróquia Nossa Senhora do Carmo em referência nacional de Pastoral Urbana.

 

VIDA PASTORAL 

Os jovens carmelitas vieram com o objetivo de continuar os estudos de Teologia e de reorganizar a vida pastoral na Paróquia. Tratava-se de colocar em prática as conclusões e determinações do Vaticano II, Concílio que representara a “nova primavera” na Igreja Católica, segundo palavras do Papa João XXIII.

A Pastoral do Carmo privilegiou, desde seu início, a qualidade das relações interpessoais. Os carmelitas ofereciam uma ação, ao mesmo tempo, comprometida com a transformação da realidade local. Muitos cristãos, antes desiludidos com a Igreja e o país, descobriram novo sentido de vida na ação pastoral. Os diversos cursos, reuniões e debates, a partir dos documentos do Concílio, enchiam as salas do convento todos os dias da semana. Os cursos de Atualização Teológica para leigos tinham as vagas esgotadas.

Frei Cláudio e Frei Paulo propunham, a cada domingo, boletins extremamente criativos, ilustrados com músicas populares da época – canções de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, entre outros – integradas a comentários do Evangelho e notícias da Paróquia.

Ao final de 1974, o Boletim abria as contas da Paróquia e uma nova marca com o novo slogan: Um gesto vale mais que mil palavras. Em uma frase, sintetizou a vocação da pastoral que foi assumida pela Comunidade. A escolha foi comemorada por traduzir com fidelidade o significado das ações implementadas nos vários serviços. No ano seguinte, 120 pessoas, reunidas no Salão Paroquial, decidiram trabalhar como voluntárias na Paróquia.

Foi neste tempo também que Frei Cláudio coordenou mais de 300 profissionais da área de saúde, que ofereciam consultas e exames gratuitos em várias especialidades, inaugurando dois serviços importantes na área da Promoção Humana: o Ambulatório Médico e a Escola Profissional.

O ambulatório prestava atendimento nos setores odontológico, laboratorial e farmacêutico. O setor médico contava com 22 médicos em diferentes especialidades. Na escola profissional, 159 alunos chegaram ao final dos cursos do primeiro semestre e foi aberto um novo caminho de oportunidades. A Secretaria de Trabalho e Ação Social reconheceu oficialmente os cursos oferecidos.

FREI CLÁUDIO DEIXOU MARCAS 

Nos anos 80, iniciou um detalhado relatório das despesas e receitas referentes às diversas atividades desenvolvidas no Carmo: Ambulatório, Pão de Santo Elias, Escola Profissional, Pró-Menor, Casa-Lar Horizonte, Curso de Noivos, Encontro de Casais, Grupo de Jovens, Bazar da Vovó, Coral do Carmo, Psicologia, incluindo os serviços religiosos e a administração geral.

Ao longo de décadas e paralelamente aos serviços pastorais, muita gente foi chamada a colaborar com os mais variados projetos de Frei Cláudio. Citamos alguns como exemplo:

• Projeto PROHABITAR (1989) – Com o apoio de diretores, professores, pais e alunos de vários colégios da cidade criou-se um Fundo, administrado pela igreja do Carmo, destinado à promoção humana, principalmente crianças e moradores de rua. O projeto marcou presença na Vila do Acaba Mundo e no Morro do Papagaio, financiando material para a reforma de barracos e construções em alvenaria. Segundo Frei Cláudio, essas ações buscam melhorar a qualidade de vida, o que se reflete nas relações, e agem como um milagre no cotidiano das pessoas. Morar melhor permite organizar a convivência e desenvolve uma cultura moral e cidadã.

• Associação dos Catadores de Papel e Papelão – ASMARE – A partir de 1987, iniciou-se o processo de organização social e produtiva, através do qual os resíduos recicláveis tornam-se matéria prima e geram trabalho e capital. A associação formalizou-se em 1990.

• Bazar da Família – o bazar funciona como um grande entreposto, recebendo, fazendo a triagem e distribuindo as doações recebidas.

Centenas de voluntários, integrados nas atividades pastorais, davam sustentação ao trabalho de Frei Cláudio.
Para o Serviço Religioso, ele contava com o auxílio de frades que passavam pela cidade, permanecendo por
pouco tempo: Freis Carlos Mesters, Paulo Gollarte, Domingos Fragoso, Martinho Cortez.

Em 1990, Frei Cláudio é indicado como pároco pelo Provincial Carmelita e aprovado pelo Arcebispo D. Serafim Fernandes de Araújo, que lhe enviou uma nomeação formal.

Foram 50 anos dedicados a Igreja do Carmo, no bairro do Carmo, em Belo Horizonte, e neste longo período de atuação conquistou o carinho, o respeito e a admiração de cristãos, líderes da sociedade civil e comunidades. Dentre os muitos reconhecimentos, recebeu o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte em 1990, Personalidade do Ano de Belo Horizonte em 1997 e em abril de 2010, recebeu do Governo do Estado de Minas, a Medalha da Inconfidência, a mais alta comenda concedida pelo Governo.

Ao longo de sua vida e trajetória, Frei Cláudio não mediu esforços para levar a frente o slogan “Um gesto vale mais que mil palavras” e o carinho da sua comunidade local era inegável, conseguindo reunir nas celebrações mais de 1400 pessoas.

Sua vida impactou não só Minas Gerais, mas todo o Brasil, pois sua fala e sua vida chegaram longe.

O atual Prior Provincial, Frei Adailson Quintino dos Santos, O.Carm, fala sobre o legado que Frei Cláudio deixou.

“Ele veio ao Brasil com espirito missionário. Frei Cláudio se adaptou de uma forma muito rápida e, prova disso, é que ele disse uma vez que não veio ao Brasil para ser estrangeiro, mas para assumir a cultura do país. E foi isso que fez ao longo dos 50 anos que ficou na Paróquia do Carmo. Teve uma vida de total comprometimento com a vida daqueles que mais necessitavam, dos mais vulneráveis. Os projetos sociais que criou foram e continuam sendo referência para a capital mineira. Frei Cláudio era um homem dedicado aos mais pobres, era um homem comprometido verdadeiramente com a causa”

Frei Gilvander Moreira, O.Carm, morou com Frei Cláudio durante 10 anos e considera-o um dos seus mestres.

“Frei Cláudio combateu o bom combate e fortaleceu muitos na fé cristã e na luta pela libertação integral. Que o Deus da vida, mistério de infinito amor, console todas as pessoas que sentem já sua falta física. Em memória de frei Cláudio, sigamos caminhando e lutando pela humanização das pessoas e construção do reino de Deus a partir do aqui e do agora. Frei Cláudio, sempre firme e fiel no seguimento de Jesus de Nazaré, apontou e orientou um caminhar de fé maduro e livre de crendices. Aprendi a admirá-lo e a respeitá-lo muito. Aprendi muito com você, querido irmão Cláudio. Cuidaremos do seu legado. Frei Cláudio van Balen, obrigado por tudo o que você me ensinou e tem ensinado a tanta gente. Gratidão eterna a você, Frei Cláudio, agora partilhando vida plena eterna. Você, Frei Cláudio, continuará sempre vivo em nós, na luta por tudo o que é justo e ético.”

Frei Paulo Goullarte, O.Carm, conviveu e fez parte de grande parte da trajetória de Frei Cláudio.

“A grande experiência que tive ao seu lado foi na renovação da paróquia do Carmo em BH. Éramos um grupo todo que havia estudado em Roma. Foi um tempo de grandes transformações com a implantação do aggiornamento do Concílio. A nossa vida conventual foi muito fraterna, a pastoral colocada em novos trilhos. Escrevemos muitos artigos e fizemos muitas palestras. Frei Cláudio era muito livre no seu pensamento, mas com um fundamento sólido de teologia. Dizia-lhe que estava sempre dois passos à minha frente, como me expressei na homilia dos seus 50 anos de sacerdócio. Os seus escritos eram sempre lidos com muita leveza. Falava de Deus com grande simplicidade, como alguém que lhe era muito íntimo, familiar. De trato muito gentil e disponível para com todos, não fazia distinção. Sentia que às vezes estava diante um meninão que conseguiu conservar sempre a inocência da infância.  Teria ainda muita coisa a dizer, mas fiz um sumário sobre alguém que foi meu grande amigo e do qual sempre terei muita saudade. E digo-lhe adeus, até Deus.”

A missa de sétimo dia será celebrada na sexta-feira, dia 26, às 20h, na Igreja do Carmo, em Belo Horizonte. Haverá transmissão ao vivo pelo canal do youtube da igreja. 

 

Fontes:

Arquidiocese de BH

Blog Frei Cláudio

Blog Frei Gilvander